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Ronaldo Rego Macedo

Ronaldo do Rego Macedo apresenta obras da sua vasta produção artística na Marcia Barrozo do Amaral - Galeria de Arte, a partir do dia 23 de agosto. 


Após 11 anos sem realizar uma exposição individual, o artista agrega telas e recortes coloridos inéditos, que revelam toda a inquietude proporcionada por este período de retiro criativo e também trabalhos anteriores a este verdadeiro auto-resgate.

 

Com a premissa “pintura é cor”, Ronaldo expõe oito pinturas em óleo sobre tela e óleo sobre papel com temas cromáticos. São pinturas brancas, areia, cinzas azuladas em que a gestualidade arquitetural rigorosa provoca a sensação de espaços mais vastos, de grandeza e expansão que desejam ultrapassar os limites da quadro. Nos seis recortes coloridos (óleo sobre cartão) em caixas de acrílico expostos, a cor vibra pela intensidade dos contrastes, pelas texturas aveludadas e sensuais.

 

“Ambos os conjuntos, as telas brancas e os recortes coloridos, têm trabalhos inéditos, realizadas nesses últimos anos. Não constituem uma visão completa do que venho fazendo, mas sintetizam claramente o que me ocupa como pintor: a cor como estrutura, a pintura que se pinta, que é auto-referencial, muito indicativa do meu processo de trabalho”, explica o Ronaldo. 

 

As obras expostas, como a maior de todas as telas (2,50 x 1,80) - "Movem-se os mundos no ilimitado" -, revelam a ocupação do artista com a construção formal, a dinâmica da cor e os aspectos estruturais do quadro, mas também indicam uma carga subjetiva com a presença da fantasia e do inesperado. “Procuro mostrar uma forma de pintura que se pinta sozinha. O espectador pinta a tela com seus próprios olhos e interpreta ao seu modo”, afirma.

 

 

Ronaldo do Rego Macedo

 Marcia Barrozo do Amaral - Galeria de Arte

Avenida Atlântica 4240 - lj 129 ss, Rio de Janeiro, RJ

(21) 2267-3747

23 de agosto a 23 de setembro de 2017


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Ronaldo
quarta, 30 de agosto de 2017

Texto de Cezar Bartholomeu no catálogo da exposição: PINTURA OBLÍQUA Em 1973, John Baldessari realiza trabalho intitulado Throwing Three Balls in the Air (Best of 36 Attempts). Nesse trabalho, o artista tenta fazer com que três bolas sejam capturadas na fotografia formando uma reta. Esse trabalho de Baldessari vem à mente diante de obras de Ronaldo do Rego Macedo, nas quais percebemos 3 marcas de tinta que realizam uma trajetória incerta na superfície da pintura. No entanto, em vez de um experimento conceitual sobre acontecimentos simultâneos, capturados pelo aparato fotográfico e implicados no seu realismo e sua frontalidade, na pintura de Ronaldo nos defrontamos, a partir deste triplo acontecimento, com uma gama complexa de problemas legados por uma ciência da tradição da pintura: esses pontos não configuram uma reta, mas um espaço-tempo. É bem verdade que esses três pontos, em sua obra, também apresentam-se maliciosamente como fatos empíricos. No entanto, como fatos pictóricos, não são tema ou mesmo modelo. Se 3 pontos definem um lugar real no espaço, estes três pontos apresentam-se na tela sobretudo como uma forma em deriva – como recusas. Denotam a clara diferença entre intenção e finalidade pictóricas bem como ironicamente denunciam a falta de desejo de instar na pintura projeto e produto. Por essas recusas, a pintura de Ronaldo do Rego Macedo parece retomar um problema legado a arte brasileira pelo neoconcretismo: o da inclusão na forma de um potencial expectador – a inclusão da presença de seu corpo, de seu olhar, de sua temporalidade e mesmo da possibilidade do consumo das imagens. As formas, assim, aparecem como topologias – como resultado da pressão entre o corpo do expectador e do artista. Ronaldo certamente parte do legado do neoconcretismo, o que motivou relacionarem previamente sua obra a uma “geometria sensível”, expressão possibilitada menos pela subjetivação dos problemas da abstração geométrica e mais por uma ciência da relacionalidade das formas. Suas pinturas, de fato, retomam a visada fenomenológica presente nos trabalhos neoconcretos, mas reatualizam essa visada no panorama contemporâneo. Vê-las é perceber o aparecimento das formas em consequente e ainda mais complexa relação. Na série de obras coloridas, por exemplo, as formas, cujo grafismo é reforçado pela cor e pela ação de dobras, cortes e justaposições extremamente precisos, estão implicadas em estranha obliquidade: a frontalidade dessas obras, sua cor, esse grafismo são parte de um mesmo engodo, pois estão de fato operadas a partir de uma ab-ocularidade: as formas aparecem e se relacionam em primeiro lugar com as outras formas; não somos sujeitos e nem objetos da pintura, somos testemunhas da relação de uma terceira parte. Como nos indica Derrida em Memórias de Cego, sobre a construção de autorretratos, “[…] deve-se supor, além do espelho, outro objeto, um que não vê, um objeto sem visão, ab-ocular, ou no mínimo (pois pode se tratar de um terceiro sujeito com olhos ou aparato óptico) um objeto que, de seu ponto de vista, seu local, não leve nada em consideração, não tenha visão. Apenas o tópico de um objeto ab-ocular, apenas este remédio tópico, resgata Narciso da cegueira.” A pintura se oferece como imagem, tanto quanto se resguarda. Em outras séries, o movimento não é propiciado pela motivação da cor-estrutura, mas a partir das diversas pinceladas quase brancas, sem brilho, que podem ser compreendidas como aparecimento de densidades em relação, umas com as outras. É importante marcar que não se trata de problema compositivo, filiado às tentativas de retornar ao expressionismo abstrato – como um fetiche histórico tardo moderno pela obra de Franz Kline. E se a pintura de Robert Ryman compartilha da gama de problemas instados aqui, as pinturas apresentadas não decorrem da relação minimalista entre fenomenologia e serialidade – da manutenção de um isolamento entre as relações interiores desenvolvidas na obra, e aquelas exteriores, no interesse da objetividade das formas. Ao contrário, aqui também a produção e relação entre as formas ocorre numa obliquidade que denuncia o atravessamento difícil da obra ao expectador, problema inicialmente impetrado por Cézanne. As pinturas de Ronaldo impõem atravessar obliquamente o próprio movimento da pintura como véu. Cézanne, ao problematizar amplamente a pintura como analogia ilusionista, questionava não apenas sua estruturação pela perspectiva linear, mas também cada pincelada como a inscrição de um fato pictórico, do qual atomicamente deriva um ponto na tela, no espaço, a analogia com o real, um gesto, uma forma, múltiplas instâncias motivadas pela fé na futura totalização do quadro que o conhecimento provê, e ainda sacrificiais cegueiras de parte a parte. Como proceder então do real à pintura e vice versa – do todo à parte ou da parte ao todo? Tais questões se coloca Ronaldo, como prática de uma obliquidade prazerosa. Cezar Bartholomeu